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"Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso responde-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.” [Anaïs Nin]

sábado, 23 de outubro de 2010

Ela apenas sorria.

O relógio despertou ao som de Beirut e ela levantou sem mostrar sacrifício algum naquele ato. Olhou para o céu, lindo, típico daquela época do ano. Na cozinha, ainda sonolenta, instintivamente ligou o rádio e ouviu qualquer coisa sem prestar atenção. Preparou sua xícara de café com duas metódicas colheres de açúcar. Tomou. Sentiu o amargo da bebida e, como todos os dias, como se não soubesse que o faria, colocou a terceira. Gostava daquele silêncio matinal. De envolver-se em seus pensamentos solitários, seus, somente seus. Do som apenas das músicas que ficariam em sua cabeça até o fim do dia. Voltou ao quarto e trocou-se. Naquele dia, calça jeans e blusa branca. Adorava seu percurso. Guiar o carro, ouvindo Chico e sentir o vento jogar seu cabelo para trás e refrescar-lhe a face era uma de suas sensações favoritas. Finalmente chegou ao trabalho. Sorriu desejando bom dia a todos. Para tantos, uma chatice toda essa formalidade. Para ela, um prazer que podia desfrutar todos os dias. Ela adorava aquilo, aliás, adorava seu trabalho. Nada conseguia desanimá-la. Nem mesmo a pilha de papéis para ler, despachar e cumprir. Afinal, aquele sentimento proporcionava a ela algo que ninguém imaginava. Um motivo oculto que fazia do seu dia-a-dia um mistério para os outros, ao vê-la trabalhar sorrindo e cantando a música que escutara mais cedo no rádio, não obstante a sua mesa coberta de papéis. Já nem ligava quando perguntavam o porquê de tanta alegria. Ela apenas sorria.

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