Quem sou eu

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"Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso responde-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.” [Anaïs Nin]

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Colheita

Eu procurava o amor em jardins de cactus. Vinha buscando o fruto em árvores erradas, e nas mordidas sentia o gosto azedo, que amarga no fim da boca. Colhi amores podres, comidos pelo tempo e dor.

Foi preciso paciência – e um outro tempo – amadurecendo um fruto para colhê-lo doce, suave, terno e delicado. Simples como naturalmente é. Eu imaginava haver segredos por trás dos espinhos. Mas é puro acaso que amores e espinhos se encontrem em botões abertos ou fechados. A rima entre amor e dor é armadilha.
 
O verdadeiro fruto está ao alcance das mãos – mas é tão rasteiro, que quase não se vê. É preciso passear sem fome para enxergá-lo redondo, vermelho. Para então mordê-lo distraído como numa tarde de chuva.

Aquilo

[...] Sabe aquilo que você espera, não sabe quando vem, mas espera? Aquilo que você espera tanto que até esquece e passa a lembrar só de vez em quando, pelo menos finge que não lembra, mas ainda espera? Aquilo, quando chega ou aparece, te dá um frio na barriga, você não sabe onde coloca as mãos, não sabe se sorri, se chora [...] Teu coração descompassa, tua cara muda de um jeito que você jura que todo mundo vai notar. Aquilo tem um nome que só você sabe. Pode ser qualquer nome, textura ou CPF. Aquilo é tão imenso, tão bonito que te desconserta e vai sempre ser uma surpresa... Mesmo que você espere. Sabe?! Pronto.