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"Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso responde-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.” [Anaïs Nin]

domingo, 9 de outubro de 2011

O problema…
…é que eu te amo,

De uns dias pra cá, os ponteiros mal anunciam o meio-dia, e eu já me apaixonei trinta e três vezes. Algo muito natural, tendo em vista o óbvio: te querer bem é fácil. Um deslize. É macio. E não duvido que o céu, ao me ver tão vermelha, fique todo encabulado e resolva amar também. Eu percebo. Percebo ainda quando as borboletas enfileiradas vêm morar em meu estômago e eu, distraidamente, começo a gostar.

Às vezes eu não preciso de motivos muito lindos para te trazer para mim. Às vezes basta dar risada sozinha pela lembrança de uma bobagem que você disse na noite passada. Bastam uns primeiros motivos. Ou a cena de te ter ao meu lado sem me ver. Às vezes, também, é tudo exagerado demais. Tá tudo transbordando.Ninguém vê. Eu sinto.

É o excesso. É um espanto. Um susto. Porque, para mim, o problema é a junção de todas essas pequenezas desarrazoadas. O problema é que, eu mal acordo, e já lavo o rosto com um sonho. O problema é meu corpo teimar em soluçar no teu abraço. O problema é que eu esteja tão assim, perdida em você. É querer te levar para um canto azul, todinho azul.

O problema é querer sentar ao teu lado, muda, beijar teu ombro e logo em seguida me aninhar nele, ao mesmo tempo em que encaixo minha mão à tua e me invada uma vontade boba de ser feliz. De ser muito feliz.O problema é que a gente passe a saber qual parte de nós dois nos tem em maior quantidade. O grande problema é acabarmos descobrindo que são todas.

O problema também pode ser que você acabe gostando do meu riso fácil. Ou do meu rosto sério. O problema é que todos os teus melhores sorrisos podem vir a ser meus. O problema é teu cheiro que já aprendeu a vir embora comigo. Tuas mãos. Teu caminhar. O problema são todas essas bobagens. E as coisas sérias também.

O problema mesmo é gostarmos pra caramba um do outro. É fazer um carinho em tua nuca e, uma vez estando ali, não saber/querer mais voltar. É pensar em te ver cochilando na cama e te beijar a testa logo após cobrir teu corpo com uma manta macia. O problema é você, que tem muito a cara de ser para sempre o meu amormeuzinho.
O problema é que tudo pareça estupidamente justo. Deliciosamente genuíno. É descobrirmos a variedade que podemos ser, e não nos desvincularmos da nossa unidade. O problema é a morte instantânea de todas as pessoas ao redor a cada vez que você aparecer pra mim. O problema talvez seja encontrar um cílio teu dentro do meu livro preferido, ou o desejo de sujar a ponta do teu nariz com um pouco de cobertura. É gostar de te irritar. O problema é você esquecer teus olhos em cima dos meus e que resolva cuidar de tudo que é teu, em mim.

O problema é a cidade se calar. É a gente começar a rir de coisas que ninguém mais entende. O problema é a gente desistir de dificultar tudo. O problema é que não vamos fugir. O problema é que você seja mesmo tudo aquilo que me faltava, e eu acabe, definitivamente, indo com você para a lua. O problema é que resolvamos, num fim de semana qualquer, passar as horas inteiras trancados no apartamento, vivendo de amor-filmes-poesia-pipoca-pirraças-e-beijos, e esqueçamos o mundo lá fora. O problema é você me ver passar as mãos nos cabelos e notar que, mais que uma mania, esse gesto já decifra o quanto já sou de você. O quanto você é de mim. O problema é todo esse sentimento louco e improvável. É essa cadência bonita das letras que nos escrevem.
O problema pode ser eu gostando do engarrafamento e até pedir maior demora, porque com você ao lado o fuso é sempre outro. O problema é tudo acabar dando certo. O problema é a gente acreditar demais um no outro. O problema é ouvir teu nome em outras bocas e pensar que a única imagem que cabe nele é a tua. O problema é o você e eu, a fusão. É minha vontade de mordiscar teus lábios. É você vermelho diante de minhas declarações atrevidas. O problema é que eu cuide do que é meu, em você.

O problema é que todas as horas sejam certas demais. O problema é sempre nos inaugurarmos. É te olhar e pensar: eu escolhi você. E que você acabe me escolhendo também. O problema é te ver novamente, te pesquisar, e descobrir que, se um dia o amor resolvesse observar, olharia desse nosso jeito. O maior problema de todos, é que, veja bem, uma hora dessas vamos acabar mesmo lendo o jornal na fila do pão. E daí?

É por isso que, às vezes… Às vezes eu nem preciso de uma poesia para lembrar de você. Às vezes é só o baixar das minhas pálpebras, todo esse som mudo das pestanas, e os tais dos probleminhas. [E que eles não tenham solução].




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