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"Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso responde-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.” [Anaïs Nin]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Coisas de amor são bonitas demais.



Acordou e não abriu os olhos. O escuro do lado de fora e a imensidão de luz que havia ficado por dentro faziam com que ela quissesse redesenhar o que havia passado e não passaria nunca mais. Antes pensou nas pequenas epifanias de Caio, depois quis cantar: "quero que você me dê a mão, vamos sair por aí sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri...". E cantou. Baixinho e de olhos fechados, cantou toda a bossa que ele havia plantado nela. Todo aquele jazz embriagado, aquelas loucuras de amor. Um suspiro. Voltou a pensar em Caio e soube que de todas as dores por ele escritas, esta epifania haveria de ser uma das poucas que ela entenderia tão bem. Possibilidade de amor te mirando com olhos despretenciosos, roçandos nos teus poros, achando graça das tuas manias. E o que se faz? Ela tinha medo. Sempre teve. Todo mundo deve ter medo do amor, mesmo que pouco. Medo do outro que mora do outro lado e nem sabe o que causa na tua pele, arrepio da alma. E justamente ele que seria o que menos saberia o que nela causara. Foi daquele jeito, sorrindo grande, tropeçando nas palavras, as mãos inquietas, que ele a fez parar de pensar em passado e futuro. - "E por que já vais? Fica mais?" Flutuava na sua profunda alegria simples. Não tinha nada de místico, era uma alegria leve com que ela desejou se vestir todos os dias da primavera que chegava. E ele disse que era tarde, que tinha que ir. Que o tempo não tinha sido justo com os dois mas que agora não havia mais nada o que fazer. Ele partiu levando a primavera e deixou um sopro de amor que a fez querer ir na estante e pegar aquele livrinho amarelo do Caio e chorar de alegria porque essas coisas de amor são bonitas demais.

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